Uma nação pode ser definida de forma objetiva ou subjetiva, mas não existe uma fórmula mágica para essa definição, tendo em vista essa dimensão territorial brasileira. Existem várias culturas, várias etnias e uma grande diversidade econômica em nosso país o que dificulta essa caracterização. Mas uma coisa é certa, nossa soberania é inegociável! Isso demonstra uma construção social de vontade coletiva e um projeto comum de futuro, um sentimento de memória coletiva histórica e cultural de pertencimento. E todos esses fatores articulados levam ao nosso sentimento de nação.

Para essa formação de nossa identidade como cidadãos e como nação, precisamos resgatar nossas raízes na arte, na literatura e na música, buscando compreender que grande parte delas também foi influenciada pelo eurocentrismo. As obras da época imperial e republicana não buscavam refletir a realidade social, racial e política do Brasil. Pelo contrário, buscavam cobri-la com um véu de beleza, ordem e civilização importada, criando símbolos nacionais que serviam mais para acalmar a consciência das elites e projetar uma imagem internacional favorável do que para engajar-se com os verdadeiros dilemas da nação. Elas são, na essência, manifestações supremas da “Razão Ornamental” como citado por Gomes (1977). Com a semana de arte moderna em 1922 as obras passam a mostrar o Brasil real constituído pela classe trabalhadora, afirmando que a identidade nacional não está nos salões da elite, mas na roça, no suor, no corpo do trabalhador. Os artistas descortinam a exploração do trabalho e usam sua posição intelectual para dar voz e visibilidade ao Brasil que realmente construía o país. A imagem construída é a de um país forte, mas injusto; laborioso, mas marcado pela desigualdade – uma reflexão que, infelizmente, ainda ressoa nos dias de hoje.

Quanto a literatura percebemos que na visão de Almeida (2018) escritores como José de Alencar e Pedro Américo (pintura histórica) da época imperial, ao preferirem os mitos ornamentais ao confronto com as negações, fez com que o Brasil construísse uma identidade nacional frágil, baseada em uma autoimagem idealizada. As consequências que se refletem até os dias de hoje, são uma sociedade com dificuldade crônica de resolver seus conflitos de forma democrática e madura, perpetuando desigualdades e uma cultura política que frequentemente pende para o autoritarismo e a negação da realidade. É exatamente o “não pensar” sobre nossos problemas que garante sua longa e dolorosa sobrevivência. A partir da semana de arte moderna em 1922, foi justamente pelo uso dessa cultura das desigualdades sociais acoplada a modernidade, que os autores, principalmente os nordestinos, tiveram grandes triunfos. Eles conseguiram a partir da realidade nua e crua usar uma estética inovadora e moderna construindo uma literatura crítica em relação as desigualdades e as contradições brasileiras na busca de uma identidade nacional.

Quanto a música vemos que o processo da criação do samba, que faz parte dessa identidade cultural brasileira, provém também das camadas mais exploradas da sociedade com fins de demonstrar o dia a dia de exploração e abuso de poder em relação ao povão, juntando tudo isso a uma melodia ancestral afro. Tudo isso foi usurpado de certa forma pelo homem branco de elite e usado como manifestação popular em forma de festa, chamada “carnaval”.

Se começarmos a pensar numa busca dessa identidade nacional teríamos que nos voltar para nossa ancestralidade indígena, tendo em vista que tanto os negros africanos quanto os europeus vieram para uma terra já habitada. Mas, tendo em vista a miscigenação a partir dos desembarques estrangeiros, diversas identidades são criadas e a cultura é atravessada pela junção disso tudo. A identidade nacional atualmente é então entendida pela malemolência e por um processo inacabado de construção. A brasilidade é, em grande parte, um modo específico de misturar, e a busca por um país mais justo e soberano se torna cada vez mais um desejo coletivo. E é na cultura, no futebol, na gastronomia e nas festas populares que as diferentes pessoas conseguem se reconhecer e celebrar em conjunto.

Para finalizar, gostaria de dar um relato pessoal que se encaixa perfeitamente neste tema e que me criou uma série de questionamentos acerca dessas armadilhas de identidade. Estive em Luanda (Angola) na semana de 17 a 22/11 do ano corrente e ao visitar o museu da escravatura, de onde os escravos partiam para vir para o Brasil, meu grupo foi questionado sobre nossa identidade pela guia do museu. Ela nos perguntou o porquê éramos chamados de afrobrasileiros e não de brasileiros (nosso grupo era formado por cinco professoras negras e uma branca). Ficamos paradas pensando e realmente começamos ali a entender que a questão da identidade não deveria estar restrita a cor de pele e que essa questão era muito mais profunda. A colonização nos fez acreditar que éramos menores do que realmente somos, colocaram mordaças em nossas bocas e ideias em nossas mentes, que estão difíceis de desatar, mas acredito que à medida que formos repensando e levando essas críticas para nossas vidas, podendo repassá-las aos mais novos, como fizeram nossos ancestrais, iremos poder nos identificar como brasileiros.

Alexandra M. A. V. de La Torre

30/11/2025

 

Referências Bibliográficas:

 

ALMEIDA, Rodrigo Estramanho. Um romance à francesa e a vapor. In; ______. A ficção da realidade: sociologia de O Guarani de José de Alencar. São Paulo: Alameda, 2018, 127-97.

GOMES, Roberto. Crítica da razão tupiniquim. Curitiba: Criar Edições, 1977.

QUEIROZ, Maria. I. P. Identidade Cultural, Identidade Nacional no Brasil. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 1(1): 29-46, 1.sem. 1989. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ts/a/8Bn8H7VyP8xXgS8FJ7VpKMp/?format=pdf&lang=pt

SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar. In: ___. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. 4. ed. São Paulo: Duas Cidades, 2000. p. 11–31.